Book* Antologia Poética (2ª edição) - Vinícius de Moraes

Para descontraír, um pouquinho..., vou resenhar sobre a Nova Antologia Poética de Vinícius de Moraes *-*
Peguei na biblioteca da escola há tempos atrás, a antiga Antologia, porém... descobri esta nova edição, contém os mesmo poemas da outra, só que reorganizados e com alguns acréscimos de conteúdo.
A poesia contida nesse livro é muito intensa, profunda e invade o coração do leitor.
Eu adorei o livro, mas é claro que tem os meus poemas preferidos e outros que eu detestei. Há aqueles tristes, alegres e uns com aspecto sombriio (medo#). Pude notar, que Vinícius(1913-1980) tem uma fixação pelas mulheres (rs), muuuuuitos dos escritos dele, são acerca da mulher.
Porém, nesta resenha, vou falar sobre os mais famosos poemas dessa obra... Antes de mais nada, é bom saber que Antologia significa: coletânea de trabalhos literários, no caso desta... poéticos. E não estudo das antas como algumas pessoas tinham me dito (rimuito#).
Vinícius selecionou dentre o seu extenso acervo de escritos, os que mais lhe agradavam e então montou esta Antologia (112 poemas).Seus versos marcaram a literatura brasileira ao longo de mais de cinqüenta anos, e alguns deles são conhecidos até mesmo por pessoas pouco habituadas à leitura de poesia. Quem não conhece Viníciius?
Ele influenciou muito a cultura brasileira do século XX, tanto na literatura quanto na música popular.
É muito importante nós sabermos sobre as fases da poesia de Vinícius.
Conforme ele mesmo afirma no prefácio de sua Antologia poética, divide-se em duas fases que traduzem posturas diferentes frente à vida e à criação lírica:

**Primeira fase: Correspondendo à sua formação religiosa, os dois primeiros livros inserem-se numa linha que poderia ser designada como neo-simbolista. Nesta fase, ele escrevia versos longos, de tom bíblico-romântico, de espiritualidade católica e visionária.
O próprio poeta caracterizou esta fase como "o sentimento do sublime". Na "Advertência" à sua Antologia Poética ele afirmava que "a primeira [fase], transcendental, frequentemente mística, [era] resultante de sua fase cristã".

***Segunda fase: a partir de 1943, com Cinco elegias, a poesia de Vinícius começa a mudar. Nela - segundo o próprio autor – "estão nitidamente marcados os movimentos de aproximação do mundo material, com a difícil mas consciente repulsa ao idealismo dos primeiros anos". Esta vinculação à realidade mais imediata dá-se esquematicamente em três planos:

- o canto do amor concreto e a exaltação da mulher;

- a valorização do cotidiano e a abertura para o social;

- a utilização da linguagem coloquial.

Ele sente-se à vontade para inventar palavras, muitas vezes bilíngues, ou praticar a oralidade maliciosa( tem alguns poemas beem tensos# rs).
Por haver nessa fase uma renúncia à superstição e ao purismo fortemente presentes na primeira, bem como um direcionamento para uma atitude mais brincalhona e amorosa perante a poesia, essa segunda fase ficou conhecida como "O encontro do cotidiano pelo poeta".
Nessa passagem do metafísico para o físico, do espiritual para o sensual, do sublime para o cotidiano, o poeta retoma sugestões românticas (como lua, cidade, samba). Refugia-se no erotismo: há contemplação do amor, poemas "sobre a mulher"(¬¬') e adoração da natureza. Compôs também poemas de indignação social, cujos exemplares são: "Balada dos mortos dos campos de concentração", "O operário em construção" e "A rosa de Hiroxima" (*----* adooooro esse).

Por que é importante saber disso?? Porque nesta obra, há tanto poemas da primeira fase como da segunda, e muitas vezes, é cobrado isto nos vestibulares (:

~* Agora para ilustrar, vou comentar alguns dos poemas e sonetos mais famosos&importantes da Nova Antologia Poética de Vinícius de Moraes :D

****** SONETOS *****

Começarei pela categoria Sonetos (composição poética de 14 versos, geralmente com dois quartetos e dois tercetos), pois o forte de Vinícius era a escrita deste tipo de texto
Nesta, o poeta mantém a expressão de um lirismo controlado, ou seja, o sentimento e a emoção líricos contêm-se nos limites do equilíbrio e da harmonia. Ele procura atenuar os impulsos do "eu", isto é, de sua subjetividade particular, em favor de uma visão impessoal ou objetiva. Daí dizer que nos sonetos existe a luta de um "eu" que ama e um "eu" que raciocina, ou seja, ele tenta ficar neutro (difíciil heein!?).
Ao escrever sonetos, Vinicius de Moraes soma-se à distinta lista de poetas que versejaram em língua portuguesa, tais como Camões, Gregório de Matos, Bocage, Antero de Quental, Olavo Bilac, entre outros, e que escolheram como forma de expressão esta composição poética clássica.
Mas não é só; o motivo de tal escolha diz muito, também, sobre a atitude do poeta diante do fazer poético. O soneto, forma literária clássica fechada, é uma composição de quatorze versos, dispostos em dois quartetos e dois tercetos, seguindo variavelmente os seguintes esquemas de rima: abab / abab / ccd / ccd; abba / abba / cde / cde ou abba / abba / cdc / dcd., sendo que o metro mais utilizado tem sido o decassílabo (com acento na 4ª, 7ª e 10ª). Por encerrar o conceito fundamental do poema, o último verso constitui o que chamamos de "fecho de ouro" ou a "chave de ouro".
**
PAY ATTENTION!

Soneto da intimidade
Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.
Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.
Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve
Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.
*

ANTES DE LER O COMENTÁRIO, VEJA SE ENCONTRA ALGO DE ERRADO NESTE SONETO, ACHOU?



Thay: Esse soneto caiu no vestibular da Unicamp (2ª fase) do ano passado. Trata-se de um soneto, um taanto curioso e engraçado. Acho que é por isso que eles o utilizaram. VEJAAAM só a antítese deste escrito: sendo um soneto, era de se esperar que a linguagem e o tema fossem mais.. como posso dizer, adequados ao clássico..., sutis, delicados... maas, como vocês veem, rs,estes no soneto de Vinícius, são bem prosaicos( relativo á prosa: modo de falar, linguagem do povãão, rs, o que é o oposto dos versos Oo).
Quando você lê o título, e vê o início do soneto, remetendo ás paisagens do campo... logo acha que o eu lírico (o narrador do poema), vai falar sobre algo íntimo, solene... achamos que a criatura vai abrir o coração, falar de seus sentimentos... mas "caímos do cavalo" quando vemos que na verdade a "intimidade" da qual ele fala é sobre um tema muito banal : a cumplicidade da "mijada" (ele usa linguagem vulgar) entre ele e os animais. Isso acaba igualando ele com os bichinhos da fazenda, rs, esse rebaixamento de nível é que dá o humor do soneto.
De forma proposital, ele utiliza para exaltar a paisagem, os vicíos de linguagem: o pleonasmo (que dá até vontade de chorar quando lemos!), e a redundância, de modo á dar mais ironia e humor ao escrito. Vejam:

" Nas tardes de fazenda há muito azul demais"
* MUITO azul DEMAIS - Ahaam, kkkkk, nossa... essa doeu!

"O peito nu de fora."
- NU de FORA - HAHA, Olavo Bilac deve estar se remexendo no túmulo rachei#

Toda esta irônia e humor (do engraçaadinho) seriam INACEITÁVEIS em um escrito tão elaborado como o soneto, ou poema. Vinicíus modernizou "geral" em Soneto da Intimidade.


Soneto de separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma 1
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Oceano Atlântico, a bordo do
Highland Patriot, a caminho da
Inglaterra, 09.1938

Thay: É um soneto recheado de antíteses (oposições), vejam: riso X pranto; calma X vento; triste X contente e próximo X distante. O autor usa esta figura de linguagem de modo á expressar as mudanças na relação amorosaO emprego dessa figura de linguagem, ao longo do poema, revela as mudanças na relação amorosa. O que acontece muito não é? Casa, separa..., começa a namorar, termina o namoro... (¬¬')
Esses arranjos entre antíteses mostram bem aquela situação: entre tapas e beijos (músicadotempodamamys#)

Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que2 é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Estoril - Portugal, 10.1939
Thay: Eu adooooro esseee, ele é um dos mais adorados e conhecidos do Vinícius. Nele há clareza e concisão de linguagem , características clássicas *-* (Aaaaí siiim, parece um soneto \o). Quem já não ouviu: Mas que seja infinito enquanto dure?

* Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço

De noite ardo A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

Nova York, 1950
Thay: Segundo, o crítico Carlos Felipe Moisés, a sequência vertical da primeira estrofe manhã-dia-tarde-noite traz um encadeamento lógico: a passagem natural do tempo. Tal encadeamento é rompido na linha horizontal, já no primeiro verso ("escureço" se opõe à "manhã") e ganha ambiguidade no quarto, em que "ardo" conota claridade, em oposição ao escuro da noite, mas, sobretudo, ganha passionalidade (arder, ardor de amor). Isso aproxima parcialmente os extremos, dia e noite, e sugere a passagem do tempo como sucessão de contrates, negação de expectativas, em um clima de intenso subjetivismo (1ª pessoa).

Na segunda estrofe, numa atitude de liberdade, de anticonvencionalismo, o eu lírico diz-se guiar pelo "este" e não pelo "norte" como todos fazem. O último verso da última estrofe privilegia o circunstancial (não é "aquilo que" acontece, mas o "momento quando" acontece que realmente importa), valorizando a disponibilidade do instante presente, para que seja intensamente vivido. Observando o aspecto formal do poema, parece haver ali um soneto renovado. Isso confirma a valorização da liberdade e do individualismo, da insubordinação e da disponibilidade, também para o ato de criação poética. Ou seja, a criatura finalmente se liberta e faz suas próprias escolhas, palmas#
É o Carpe Diem , aproveite o dia ao máximo!


***** POEMAS *****

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


Rio de Janeiro, 1935


Thay: Geente, este é o quarto poema do livro, foi um dos que mais aaameei , é lindo não é?? Momento emo(cionada), choreimuito# rs.
Diz, o crítico Carlos Felipe Moisés que este é um dos primeiros poemas em que aparece a tentativa de representar a mulher amada e a experiência amorosa como ponto de encontro entre a transcendência e os apelos terrenos, entre espírito e matéria.



A rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada


Thay: Ahhh, esse é o THEBEST#
Sou suspeita para falar, porque ele aborda como tema, um acontecimento que ocorreu no minha segunda pátria: o Japão (MadeinJapan#). Bom, todos sabem que acontecimento é esse não é?
Trata-se daquela maldita bomba atômica que os norte-americanos da época, lançaram em Hiroshima (se escreve com SH mesmo, Vinícius "abrasileirou" o nome ou ... *Thay e sua imaginação fértil* talvez tenha usado X para representar Poder, como em X-Men por exemplo, rs euviajo#).
Foi um acontecimento muito triste, causou um estrago horroroso e a contaminação química da área, existe até hoje.
Vinícius adota uma postura humanista, em que cria figuras com fortes tintas, o poeta canta contra a guerra. Usando o verbo "pensar" no imperativo ("pensem"), "convida-nos" a todos a refletir diante das atrocidades causadas pela guerra; e, principalmente, a causada pelo mais novo rebento gerado pelo ser humano: a bomba atômica. A culpa não é apenas de um indivíduo ou outro. A culpa, a responsabilidade da destruição não é de um país X ou Y, mas de toda a humanidade. O que está em jogo aqui é a própria existência, ou melhor dizendo, a própria sobrevivência humana.
Ele usa meio que um paradoxo, vejam:
"A rosa com cirrose" - Quando lemos: rosa, logo nos vem á mente: bom aroma, beleza, delicadeza, etc; porém a rosa em questão é dotada de aspectos negativos.
"Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada "

E foi bem isso o que aconteceu em Hiroshima... durante esse período horroroso da 2ª Guerra Mundial tudoculpadoHitler# rs

~* Boom, readers... Leiam , vale muito a pena...! Há muitos de onde esses saíram (HAHA), tem poemas e sonetos de "tudo quanto é jeito", vocês com certeza vão se identificar com algum... e uma dica: cacem aqueles que contenham alguma coisa de "errado" como o pleonasmo e etc.

* Links para estudo *
~* Análise COMPLETA da obra


XoXo, Thay ;*







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