Quarto Escuro - T. T. Yamasaki

Entrei no quarto de Heath, as luzes estavam apagadas... o silêncio predominava o ambiente sombrio. Um riso apareceu em minha face cansada, quando concluí que aquele quarto era o retrato perfeito de seu dono. Sombrio, taciturno e macambúzio. 
Na cama, forrada por um  lençol com  pequenos pontos de flores verde-musgo, havia um livro surrado. Minha curiosidade diante de livros, seja lá quais fossem, me impeliu a verificar o título da obra.
"Reflexões de uma mente perturbada". Mais um riso. Realmente, tudo ali denunciava a personalidade dele.
Talvez tenha sido esse o motivo pelo qual Heath veio até mim, ele queria analisar uma mente verdadeiramente permeada pelo caos.
Por mais que eu sempre fosse a representação da paz interior, eu não era nada daquilo. Heath percebeu isso. Ele consegue farejar o caos... mesmo que esteja envolto a uma máscara de normalidade.
Sentei na cama e observei o quarto inteiro. 
Eu não sabia o que estava fazendo ali, como viera parar em tal lugar.
Talvez eu estivesse em um sonho e aquela fosse a representação da minha mente. Sombria, taciturna e macambúzia.
Há semanas que eu tivera a terrível revelação da grande verdade da minha vida.
Apesar de parecer ser a docilidade, paz, alegria, tranquilidade em pessoa.. havia um avesso de mim que sempre dava as caras. Esse avesso era louco, rebelde, inconformado, áspero e apimentado. E o pior era que eu não sabia lidar com isso, com esse meu lado oposto de mim mesma.
Enquanto o mundo insistia na ideia de que eu devia ser angelical, feliz e paciente. Eu resistia a todas as formas de repressão do diferente. Eu gritava no silêncio: me deixem ser o que eu sou e o que eu não sou!
Existem horas em que eu amo o mundo e sorrio para todos, mas há também os momentos em que acho que o mundo é uma porcaria e não quero ver ninguém.
Como pode uma pessoa ser dois extremos? Pois eu sou. Ah se sou. Uma desvairada. Louca e intensa.
Eu vou da gargalhada às lágrimas em um instante. Amo o mundo e o odeio. Mergulho em ideias malucas e sinto a vida de um jeito estranho. Me sinto deslocada e tresloucada nesse planeta, nessa época, nesse mar de gente igual.
Deitei na cama de Heath e fiquei admirando o teto.
Nunca achei que ninguém fosse me compreender, nunca acreditei que alguma pessoa fosse desvendar o mistério que sou, conhecer a parte que eu sempre escondi de mim mesma e do mundo. Nunca imaginei que alguém entraria no buraco mais profundo da minha mente e fosse descobrir a loucura que eu sou. As pessoas, em geral, sempre me viam como eu aparento ser, mas NUNCA como eu realmente sou.
Mas Heath conseguiu realizar os feitos que eu julgava impossíveis.
Não sei como fez isso, mas fez.
E eu o detesto e o amo por conta disso.
Onde estaria ele? Por que não estava no quarto? Por que EU estava ali se fazia anos que eu não o via mais e nem sequer falava com ele?
Muitas perguntas para pouco eu.
Fechei meus olhos e deslizei minhas mãos pelo lençol.
Mergulhei em devaneios que logo evanesceram.
Foi quando a porta se abriu. Abri meus olhos ao som das dobradiças da porta. Então, vi a sombra de Heath. Depois de tantos anos sem vê-la.
Eu estremeci por dentro e por fora. Uma onda de terror, ódio e amor me dominou. Havia um motivo pelo qual eu não queria vê-lo e outro ainda maior que me fazia desejar o reencontro.
Sabia que alguém como ele jamais seria uma boa pessoa para se apaixonar. Alguém como ele consumia e era consumido pela solidão. Pela discórdia e pela insanidade.
Esse pensamento me fez fechar os olhos novamente e desejar não estar ali, não revê-lo, não ter a oportunidade de sentir qualquer coisa intensa por aquele ser.
Cravei minhas unhas no lençol e ansiei por desaparecer daquele quarto. Quando senti o hálito quente cheirando à whiskey de Heath e ouvi o sussurro dele em meus ouvidos: "tenha cuidado com o que deseja".
Senti as mãos dele prendendo as minhas e quando abri meus olhos...
Eu estava novamente diante da luz brilhante dos raios do sol iluminando o meu próprio quarto. Um sonho. Um pesadelo. Era só isso?
"Cuidado com o que deseja"
Um arrepio se espalhou por todo o meu corpo. Eu senti Heath ali, a presença dele. Foi quando eu percebi que aquele quarto era a minha mente,  de fato, e Heath... era um pedaço de mim (ainda).

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