Algumas reflexões sobre a trilogia "Jogos Vorazes" de Suzanne Collins

Esse post contem MUITOS SPOILERS!
Hey my lovely readers! Como estão??
Há alguns dias ,eu finalmente me rendi à trilogia "The Hunger Games"! Tinha começado a ler o primeiro livro em 2012, mas não sei por qual motivo... não continuei a leitura. Todo mundo começou a falar muito bem da história, virou febre e tal... mas não me chamava muito a atenção. No entanto, em meu momento atual, resolvi que era hora de ler a trilogia! E... uau.. me apaixonei pelo mundo criado por Suzanne Collins!! Devorei os três livros rapidamente, sendo o meu preferido o segundo: "Em Chamas".
Não vou fazer uma resenha propriamente dita, pois há muitas por aí... Resolvi fazer algo diferente! Como cada um dos livros despertou inúmeras reflexões em mim, tanto pelo fato de que os temas desenvolvidos pela Collins estão presentes também na minha pesquisa de faculdade, quanto pela minha vontade imensa de falar algo sobre Jogos Vorazes.
Antes de iniciar a reflexão, devo dizer que o meu personagem favorito da trilogia é o Peeta s2 ! Ele é muito amor!! É um garoto super gente boa e inteligente que sempre se mantem fiel ao que ele é. Peeta não deixa que as pessoas "superiores" moldem o que ele é.
Quanto à sua amada: muita gente não gosta da Katniss,.. mas ela é a minha segunda favorita (me identifiquei um pouco com a moça e a admiro muito pela coragem e pelo amor. Ok, ela é fria em muitos momentos... e faz um monte de besteiras, mas devemos levar em conta o quanto ela é usada por pessoas "superiores" ao longo dos três livros). Chorei bastante com "A Esperança".... mas como minha amiga Flavinha disse: "é uma distopia, não poderia ter um final suuper feliz!".
Bom, vamos ao que interessa:


Jogos Vorazes é uma distopia e tem como ambientação Panem, uma sociedade dividida em distritos cujo poder se limita ao Presidente Snow, à Capital. 
Na Capital tudo é pura ostentação. O que mais importa para os cidadãos é a aparência, o luxo, a fartura. Eles se enchem de comidas deliciosas e depois vomitam tudo para poder comer mais. Eles se divertem com um reality show, no qual 24 adolescentes são jogados em um lugar terrível e tem que lutar pela sobrevivência, ahh sem contar que apenas um tributo vence e, para isso, é preciso matar os concorrentes. Enquanto, na Capital, as pessoas vivem no bem bom, há cidadãos passando fome nos distritos inferiores. Nesses distritos, há pacificadores que munidos de armas, garantem o cumprimento das leis. Há várias coisas que os cidadãos não podem fazer.
Os Jogos Vorazes são realizados para que o povo se lembre do que acontece com aqueles que tentam se rebelar contra a Capital. 


Isso, por acaso, lembra a vocês de alguma coisa????
Nós vivemos nesse mundo "distópico".
Deem uma boa olhada no Instagram, no Facebook e na televisão... O que vocês vêem?
Pessoas se preocupando mais com a aparência do que qualquer outra coisa.
A mídia vem como um super instrumento de manipulação, o tipo de manipulação sutil que quase ninguém percebe.
Maquiagens super caras, roupas de grifes famosas, plásticas, corpos esculturais, reality shows idiotas, festas recheadas de ostentação e, enquanto isso, pessoas passando fome, salários desiguais, proibições sem sentido, guerras por "paz", pacificadores que de pacificadores não tem nada, pessoas desejando poder e mais poder a todo momento e muita muita hipocrisia.
Quando vi os tributos tendo que vestir roupas maravilhosas para desfilarem e depois participarem de entrevistas.. tendo em vista que eles seriam jogados em uma arena para MORRER e sofrer.. (quanto mais o bicho pega na arena, mais diversão para os espectadores - atue bem e conquiste patrocinadores!!); eu pensei.. wtf ... nós não estamos muito longe disso. A diferença é que em muitas de nossas sociedades do século XXI, as coisas estão bem mais mascaradas. 
Quando vi a Coin, a grande líder do Distrito 13, logo pensei... é só mais uma oportunista dizendo que é a favor dos não favorecidos pelo atual governo, sendo que o que quer... é passar por cima de todos e tomar o lugar do presidente atual. Há muita hipocrisia hoje em dia. Muitos hipócritas estão aí falando que querem mudar a sociedade e acabar com a desigualdade, se dizendo oprimidos... e quando derrubam o opressor, eles próprios começam a oprimir outras pessoas. É um ciclo vicioso de ganância por poder.
Enquanto isso, sentamos em nossas confortáveis poltronas de estofado de veludo, comendo e bebendo... e deixando todo o discurso dominador moldar nossas mentes. Pensando: "oh, é verdade. Isso é uma verdade inquestionável. Ahh tudo bem, é assim mesmo, faz parte da tradição." Você já parou para pensar no que é uma tradição??? 
Muitas coisas horríveis ainda acontecem hoje com o nome "tradição", outras acontecem em nome da religião... etc. Mas para que questionar o que já está dito, não é?
E se alguém resolve questionar ou botar a boca no trombone, as pessoas falam: ah lá vem os revoltadinhos que não tem o que fazer.
Muita gente não tem o que fazer e quer dar uma de revolucionári@, mas não são todas as pessoas. Sempre existem aquelas que querem tornar o mundo um lugar melhor, por mais utópico que isso pareça. Porque mudar o mundo é mudar a gente. Querer mudar a si mesmo já é um belo passo.
Aí eu leio Jogos Vorazes e vejo tudo isso aparecendo. Toda a minha revolta com os assuntos super fúteis da TV, toda a manipulação dos jornais, todo aquele monte de foto no Instagram e no Facebook. Eu adoro tirar fotos e postar no Face e no Insta aos montes, não estou dizendo que é errado que façamos isso.. Estou dizendo que não devemos viver apenas por e para isso. Não podemos valorizar mais a imagem do que o que somos de verdade. Estamos inseridos na ideologia vigente e, é claro, não podemos simplesmente colocar uma capa de proteção e sair dela (parafraseando Foucault), mas podemos desconstruir certas coisas. Estou pensando nas várias meninas que morrem no desespero pelo corpo ideal (eu mesma sofro com isso e estou trabalhando duro para desconstruir essa ideia), nos vários tipos de preconceitos, nas guerras estúpidas por motivos ainda mais estúpidos, no que muita gente faz e pensa por causa de religião e/ou dinheiro, nas pessoas pagando dez mil reais por uma porcaria de sapato, enquanto tem gente comendo no Prato Feito (por 1 real você engole uma refeição) etc etc et cetera que não acaba mais.
Estou pensando principalmente no que EU posso mudar em mim, no que EU posso revolucionar em mim.. e nas coisas e pessoas à minha volta. Estou pensando no quanto eu me pareço com uma pessoa da Capital.
Critico a todos e a mim mesma nesse post.
Vejo a Katniss fazendo mil e uma coisas, matando, deixando de amar, fingindo, atuando... por algo que ela nem sabe o que é. Ela acha que está fazendo tudo isso por tal coisa, mas descobre que não, não era por aquilo.. era por outra coisa ainda maior. Aí ela não sabe em quem confiar. Ela é o símbolo da revolução, mas descobre que alguns revolucionários não são confiáveis também.
Aí vem um presidente desgramado hipócrita ridículo querendo controlá-la. Seu melhor amigo querendo controlá-la, a sociedade dizendo com quem ela deve casar. 
Eu simplesmente amo a hora em que ela dá uma flechada das boas na presidenta. 
E o Peeta? O Peeta que sempre quis se manter fiel a quem ele era.. cai nas mãos do governo e sofre um telessequestro (uma lavagem cerebral)... 
E aí eu olho para nós, nós zanzando por esse mundo, para onde vamos? Pelo que lutamos? O que somos? 
Poxa vida, nós somos tão controlados. Nós estamos no meio de uma edição quentíssima dos Jogos Vorazes! Todos nós. Sem saber porquê. 
A boa notícia é que você pode sobreviver a esse jogo sendo você mesm@. Basta descobrir quem é você. 
Problematize, pense, bote a cabeça pra funcionar! Por que uma coisa é certa? Só porque falaram pra você que era? 
Vi essa imagem no Facebook e pensei muito sobre isso:


Alguém me explica porque com a mulher o julgamento é de um jeito e com o homem é de outro?
O mundo acontece enquanto você assiste televisão e acha tudo muito bonito!
Vamos comprar muitas coisas, vamos ostentar.. quem sabe isso não preenche o vazio de nossas existências?? 
Jogos Vorazes também acabou tendo muita relação com "Clube da Luta", aliás, super indico a leitura desse livro maravilhoso. Aqui está um trecho dele:

“- (...)  Há uma categoria de homens e mulheres jovens e fortes que querem dar a própria vida por algo. A propaganda faz essas pessoas irem atrás de carros e roupas de que elas não precisam. Gerações têm trabalhado em empregos que odeiam para poder comprar coisas de que realmente não precisam. – Não temos uma grande guerra em nossa geração ou uma grande depressão, mas na verdade temos, sim, é uma grande guerra de espírito. Temos uma grande revolução contra a cultura. A grande depressão é a nossa vida. Temos uma depressão espiritual.” (p. 186)

Também associei essa reflexão ao livro "O Mal-Estar na Civilização", no qual Freud propõe que a civilização dificulta ainda mais a nossa felicidade, pois é, a sociedade não quer pessoas felizes. Discordo de alguns pontos colocados pelo tio Freud, mas achei ótimo ler o livro.
Lembrei muito de Foucault e seus livros maravilhosos:  A Verdade e as Formas Jurídicas (sobre a construção daquilo que temos como verdade) e Microfísica do Poder (com a ideia de quem sempre exerceremos poder sobre alguém. Você pode até ser contra o poder do governo sob o povo, mas você também exerce poder sob algumas pessoas).

Há muitas coisas que eu gostaria de escrever, mas acho que o texto já está bem longo, né hahah? 

Encerro, por ora, a minha reflexão, com o excelente trecho da guerreira Katniss Everdeen:

“Eles podem me engordar. Eles podem refazer todo o meu corpo, me dar roupas elegantes e me deixar novamente bonita. Eles podem bolar armas de sonho que ganharão vida em minhas mãos, mas jamais farão novamente a lavagem cerebral para me convencer da necessidade de utilizá-las. Não tenho mais nenhum compromisso com aqueles monstros chamados seres humanos. Eu mesma me desprezo por fazer parte deles. Acho que Peeta tinha certa razão quando disse que poderíamos destruir uns aos outros e deixar que outras espécies decentes assumissem o planeta. Porque há algo significativamente errado com uma criatura que sacrifica as vidas de seus filhos para resolver suas diferenças. Para onde quer que você se vire, você enxergará esse tipo de visão de mundo. Snow pensava que os Jogos Vorazes eram uma forma de controle eficiente. […] Mas no fim, a quem tudo isso beneficia? A ninguém. A verdade é que viver num mundo onde esse tipo de coisa acontece não traz benefícios a ninguém.”


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