Books* Garota, interrompida - Susanna Kayzen

Hi, my lovely readers!!
Nossa, faz o maior tempão que não escrevo resenha de livro (e qualquer outra coisa também)!!
As aulas voltaram e junto com elas um monte de leituras e trabalhos para fazer.
Estou com uma lista de livros para resenhar! 
Hoje me bateu vontade de escrever sobre "Garota, Interrompida" (talvez seja porque eu revi o filme ontem haha). Então, voilá!

Garota, InterrompidaSinopse
Garota, Interrompida - Quando a realidade torna-se brutal demais para uma garota de 18 anos, ela é hospitalizada. O ano é 1967 e a realidade é brutal para muitas pessoas. Mesmo assim poucas são consideradas loucas e trancadas por se recusarem a seguir padrões e encarar a realidade. Susanna Kaysen era uma delas. Sua lucidez e percepção do mundo à sua volta era logo que seus pais, amigos e professores não entendiam. E sua vida transformou-se ao colocar os pés pela primeira vez no hospital psiquiátrico McLean, onde, nos dois anos seguintes, Susanna precisou encontrar um novo foco, uma nova interpretação de mundo, um contato com ela mesma. Corpo e mente, em processo de busca, trancada com outras garotas de sua idade. Garotas marcadas pela sociedade, excluídas, consideradas insanas, doentes e descartadas logo no início da vida adulta. Polly, Georgina, Daisy e Lisa. Estão todas ali. O que é sanidade? Garotas interrompidas.
Fonte: Skoob
Li esse livro em meados de fevereiro, ele é bem curto.. então li rapidamente. Já havia assistido o filme quando tinha uns 12 anos. Mas há pouco me veio o anseio de ler o livro de fato. 
Antes de qualquer coisa, o escrito é um testemunho, o testemunho de uma jovem que passou um longo período em um hospital psiquiátrico. O motivo? Ela apresentava diversas atitudes consideradas sintomas de distúrbios psicológicos. O ápice da crise de Susanna se deu quando esta tentou o suicídio. Porém, o que a autora nos faz questionar é se, de fato, tais atitudes poderiam ser consideradas como indícios de que ela estivesse louca. Aliás, o que é a loucura? Ser louco é não ser normal, ou seja, não estar de acordo com a norma. Mas o que é entendido como normal é algo estipulado pela sociedade. Se uma pessoa faz algo que  se desvia do que é dito normal, esta é considerada louca. Este é um tema sobre o qual eu gosto muito de refletir. Se pararmos para pensar, todas as pessoas são um pouco loucas..! Mas existem as loucuras legitimadas, camufladas.. e existem aquelas estigmatizadas e condenadas. No ano passado, fiz um trabalho de Neurolinguística com uma amiga e pensamos muito no assunto. Atualmente, vemos na medicina, uma epidemia de diagnósticos, uma ânsia pela rotulação. Uma criança que é enérgica "além do normal" (como determinar o que é esse "além do normal"?) é diagnosticada com hiperatividade e déficit de atenção. Por outro lado, muitas crianças que não gostam muito de brincar e preferem ficar em seu canto são suspeitas de autismo. O que é ter uma doença psíquica? Pessoas que ficam grudadas em celular, o dia inteiro.. obcecadas com selfies são consideras normais; enquanto alguém que é obcecado com padrões de ações é classificado como tendo TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). É preciso questionar o que se entende como loucura. 

Susanna, após uma consulta com seu psiquiatra, aceita se internar... Ela conta, durante o livro, suas experiências no hospital psiquiátrico McLean. Os episódios não seguem ordem cronológica (o que reproduz exatamente o que acontece com as nossas lembranças, elas não vem em ordem cronológica) e são extremamente interessantes. Conhecemos a rotina de Susanna e suas companheiras. Polly, Georgina, Daisy e Lisa são as principais. Lisa é a mais doidona de todas hahaa (e foi interpretada lindamente por Angelina Jolie, no filme)! A vida no hospital não é tediosa e triste (como eu pensei que seria), pelo contrário, é bem divertida e cheia de aventuras. É claro que coisas tensas acontecem, mas assim também ocorre "do lado de fora" do hospital. Acredito que "Garota, Interrompida" seja uma viagem de descobertas. Susanna, graças ao cotidiano no hospital. às suas companheiras e funcionários do local acaba conhecendo melhor a si mesma. É lá que ela desconstrói pensamentos e constrói novas ideias, novos sentidos para sua vida, para o mundo e para as suas amigas de hospital.
Como eu gosto muito dessas questões que tangem a psique humana, "Garota, Interrompida" acabou se tornando um prato cheio para mim. Devorei-o em pouco tempo.
O livro me ajudou a prestar atenção em mim mesma e no contexto social no qual me insiro. 
Pensei em amigos, nos meus problemas, nos problemas do mundo. Cheguei à consideração de que penso de forma parecida com a de Susanna. A loucura é muito estigmatizada, Ou melhor, ser diferente é algo estigmatizado. Mas ser louca e/ou diferente não é uma coisa ruim como dizem!
Só porque não gosto de ser "social" e acho a humanidade uma porcaria. Só porque mudo meu humor a cada 10 minutos. Só porque sou muito triste a todo momento, triste porque ser humana me dá náuseas; quer dizer que sou louca e isso é errado? Quer dizer que o mundo inteiro está certo e EU é que preciso de CURA? Se ser louca é ser diferente, então sou louca, com orgulho. 
Adorei o final. onde Susanna expõe seus questionamentos. Me afeiçoei a cada uma de suas companheiras de hospital e quis ser psiquiatra de toda (embora eu também me visse como paciente).
Leitura excelente, pois expande horizontes!

Sobre o filme: acho que ficou maravilhoso! Eu até gostei mais da adaptação cinematográfica do que do livro. O filme acrescenta algumas coisas e traz atrizes ótimas! Super recomendo!

- Eu já fui louca? Talvez ou talvez a vida seja.

Frases do filme:

"Ser louco não é estar quebrado,
ou engolir um segredo sombrio.
É ser como você ou eu...amplificado...
se você já contou uma mentira e gostou...
se alguma vez já quis ser criança para sempre."

"Afinal, o que é loucura? Quem define o que é loucura?"


"Com quantos caras uma garota deve dormir para ser considerada promíscua? Três, quatro, dez? Com quantas garotas um cara tem que dormir? Quinze? Quarenta? Cento e nove?"

“Sei exatamente como é querer morrer, como dói sorrir, como você tenta se ajustar e não consegue, como você se fere por fora tentando matar o que tem dentro.”

"Você é uma menininha mimada e preguiçosa que está enlouquecendo a si mesma."

"Quando você não quer sentir nada, a morte pode parecer um sonho."



Aqui estão alguns trechos de que gostei:


"Na verdade, eu só queria matar uma parte de mim: a parte que queria se
matar, que me arrastava para o dilema do suicídio e transformava cada janela,
cada utensílio de cozinha e cada estação de metrô no ensaio de uma tragédia."


"No entanto, devo admitir que eu sabia que não estava louca.
O que pesou definitivamente na balança foi outro pré-requisito: meu estado de
contrariedade. Minha ambição era negar. Fosse o mundo denso ou oco, ele só
provocava minha negação. Quando era para estar acordada, eu dormia; se devia
falar, me calava; quando um prazer se oferecia a mim, eu o evitava. Minha
fome, minha sede, minha solidão, o tédio e o medo, tudo isso era, sempre, uma
arma apontada para meu inimigo, o mundo. É claro que o mundo não estava
nem aí para esses sentimentos, e eles me atormentavam, mas eu extraía uma
satisfação mórbida do meu sofrimento. Ele confirmava minha existência. Toda a
minha integridade parecia residir em dizer “não”."


"Os tristes precisam ouvir o som de sua tristeza."

"Por que será que a métrica, a cadência e o ritmo provocam loucura em quem
os produz?
Era a nossa vida medida em doses pouco maiores do
que as benditas colherinhas de café. Colheres de sopa, talvez? Colheres de lata,
amassadas, transbordantes de algo que devia ser doce, mas era amargo e se
esvaía, se derramava sem que pudéssemos sentir seu sabor: nossas vidas."

"A LOUCURA ASSUME duas variantes básicas: a lenta e a rápida.
Não estou falando do seu início ou da sua duração. Refiro-me à qualidade da
loucura, ao problema cotidiano da piração.
Os nomes são muitos: depressão, mania, ansiedade, agitação. Não dizem
grande coisa."

"Quem observa não consegue saber se uma pessoa está calada e
quieta porque sua vida interior estacionou ou porque sua vida interior é de uma
atividade paralisante.O que as duas têm em comum é o pensamento repetitivo. As experiências
parecem pré-gravadas, estilizadas. Padrões mentais específicos se ligam a
movimentos ou atividades específicas e, sem que você perceba, torna-se
impossível abordar aquele movimento ou atividade sem deslocar uma avalanche
de pensamentos pré-pensados.Uma avalanche letárgica de pensamentos sintéticos pode levar dias
despencando. Uma parte da paralisia muda da viscosidade ocorre porque você
sabe em detalhes o que vem pela frente e fica esperando sua chegada. Lá vem o
pensamento “eu não presto”. E nisso, lá se vai o dia de hoje. O dia inteiro, aquele
“pinga-pinga” insistente, “eu não presto, eu não presto”. O próximo pensamento,
no dia seguinte, é “eu sou o Anjo da Morte”. Por trás desse pensamento existe
uma fulgurante extensão de pânico, uma extensão inalcançável. "

Esses pensamentos não significam nada. São mantras idiotas que existem
dentro de um ciclo predeterminado: “Eu não presto, eu sou o Anjo da Morte, eu
sou burra, eu não faço nada direito”. O primeiro pensamento já desencadeia o
resto do circuito. É como gripe: primeiro uma dor de garganta e depois,
inexoravelmente, o nariz entupido e a tosse.
Algum dia esses pensamentos devem ter significado alguma coisa. Devem ter
significado o que afirmam. A repetição, porém, tirou-lhes o gume. Tornaram-se
música de fundo, o pot-pourri Muzakdo ódio que sentimos de nós mesmos.
O que é pior: uma sobrecarga ou o seu contrário? Por sorte, nunca tive de
escolher. As duas coisas se manifestavam, passavam correndo ou driblando por
mim e seguiam adiante.
Adiante para onde? De volta para as minhas células, para ficarem à espreita
como vírus, esperando a próxima oportunidade? Para o éter do mundo,
aguardando as circunstâncias que propiciariam seu reaparecimento? Endógeno
ou exógeno, natureza ou educação – é o grande mistério da doença mental."

"Tinham uma linguagem própria: regressão, “atuação”, hostilidade, abstinência,
comportamento autoindulgente. Esta última expressão podia vincular-se a
qualquer atividade, dando-lhe um ar suspeito: comportamento autoindulgente ao
comer, ao falar, ao escrever. No mundo exterior, as pessoas comiam, falavam e
escreviam – mas nada do que a gente fazia podia ser simples.
Assim eram as pessoas que nos guardavam. Quanto às que nos resgatavam...
bem, cabia a cada uma de nós o próprio resgate."



"PARA MUITAS DE NÓS, o hospital era tanto um refúgio quanto uma prisão.
Embora estivéssemos afastadas do mundo e de todas as confusões que
adorávamos aprontar nele, também estávamos afastadas das cobranças e das
expectativas que nos haviam enlouquecido. O que podiam cobrar de nós,
enfiadas no hospício?
O hospital nos protegia de todo tipo de coisas. Pedíamos às funcionárias para
não aceitar telefonemas ou visitas de pessoas com quem não queríamos falar,
ainda que fossem nossos pais."



"NÃO IMPORTA O NOME QUE LHE DAMOS – mente, personalidade, alma –,
gostamos de pensar que possuímos uma coisa maior do que a soma dos nossos
neurônios, uma coisa que nos “anima”.
Vai-se descobrindo, porém, que boa parte da mente é, na verdade, cérebro.
Uma lembrança é um processo específico de mudanças celulares em pontos
específicos da cabeça. Um estado de espírito é uma conjunção de
neurotransmissores. Acetilcolina demais, serotonina de menos, e você entra em
depressão."



“[I]ncerteza quanto aos diversos aspectos da vida, como a autoimagem, a
orientação sexual, as metas de longo prazo ou a escolha da profissão, o tipo certo
de amizades ou namorados que deve ter... ”. Essa última frase é divertidíssima. A
construção canhestra (o “que deve ter” me parece supérfluo) confere-lhe
substância e peso. Ainda me ocorrem incertezas dessa ordem. “Será que é esse o
tipo de amigo ou amante que eu desejo?”, pergunto-me, logo que conheço
alguém. “Encantador, mas fútil; bom de coração, mas um tanto convencional;
bonito demais para prestar; fascinante, mas provavelmente pouco confiável”, e
assim por diante. Acho que já recebi minha cota de pessoas pouco confiáveis.
Mais do que a minha cota, talvez? E de quanto seria minha cota?"



"Naquela época eu não sabia que eu ou qualquer outra pessoa podia construir
uma vida a partir de namorados e literatura. Pelo que eu via, a vida exigia
habilidades que me faltavam. O resultado era um vazio e um tédio crônicos.
Também havia outras consequências, mais perniciosas: uma aversão por mim
mesma que se alternava com “uma raiva intensa e despropositada, com
frequentes acessos de fúria...”


"Qual seria o nível de intensidade adequado para a minha raiva de estar
excluída da vida? Meus colegas construíam suas fantasias quanto ao futuro:
advogado, etnobotânico, monge budista (o colégio era muito progressista). Até
mesmo os burros e desinteressantes, que estavam ali para dar certo “equilíbrio”,
pensavam em casamento e filhos. Eu sabia que não teria nada disso, pois sabia
que não queria ter. Isso tinha de significar que eu não teria nada?

Todos tinham 17 anos e eram infelizes, iguaizinhos a mim.
Não tinham tempo de se perguntar por que eu era um pouco mais infeliz do que
eles.
Vazio e tédio: é dizer pouco. O que eu sentia era uma total desolação.
Desolação, desespero e depressão."


"Eu melhorei, Daisy não, e não sei explicar por quê. Talvez eu apenas flertasse
com a loucura, como flertava com meus professores e colegas. Não estava
convencida da minha loucura, embora temesse estar louca. Há quem diga querer uma opinião consciente sobre o problema é um indício de sanidade, mas não
sei ao certo se é assim. Ainda penso nisso. Sempre terei de pensar nisso.
Com frequência me pergunto se sou louca. Também pergunto aos outros.
“Será que o que vou dizer é loucura?”, pergunto, antes de dizer uma coisa que
provavelmente não é loucura."


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